O roubo de cargas no Brasil deu sinais de recuo em São Paulo, onde os registros caíram mais de 34% no acumulado de janeiro a maio. O alívio, porém, é parcial: o crime ficou mais seletivo e planejado, dirigido a mercadorias de alto valor agregado e fácil revenda, como medicamentos.
Roubo de cargas cai em número, mas o prejuízo muda de lugar
Menos ocorrências não significam menos risco, porque cada ação passou a ser mais bem escolhida e mais cara.
O recuo paulista foi descrito pela Revista Apólice como sinal de um crime mais planejado. A publicação registra salto expressivo dos medicamentos na participação dos prejuízos do setor. O movimento indica escolha criteriosa de alvo, e não perda de capacidade dos grupos criminosos.
O ponto de partida, porém, continua alto. O país contabilizou 10.478 roubos de carga em levantamento da NTC&Logística divulgado pelo Jornal da USP. A média nacional apurada pelo Sinesp chega a 27 ocorrências por dia.
Os números que a queda recente não apaga:
- 10.478 roubos de carga registrados no país, segundo a NTC&Logística
- R$ 1,2 bilhão em prejuízo estimado pelo mesmo levantamento
- 27 ocorrências por dia, em média, de acordo com o Sinesp
O custo do risco também mudou de endereço. Dados da CNseg reunidos pela Agência Brasil mostram o peso dos seguros de transporte.
| Seguro de carga | Arrecadação no período | Indenizações pagas |
|---|---|---|
| RC-DC, que cobre o desaparecimento da mercadoria | R$ 570 milhões | R$ 239 milhões |
| RCTR-C, de responsabilidade do transportador | R$ 721 milhões | cerca de R$ 520 milhões |
O que sai do noticiário policial reaparece na planilha de custos.
A ANTT passou a exigir comprovação dos seguros obrigatórios pela Portaria Suroc nº 27, sob pena de suspensão do Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas, o RNTRC.
Prêmio de seguro mais caro chega ao frete, e o frete chega ao preço final.
Por que o crime ficou mais seletivo?
Porque o retorno de cada ocorrência passou a pesar mais do que a quantidade de ataques.
Grupos organizados passaram a estudar rotas, horários e o conteúdo dos veículos antes de agir. A escolha recai sobre cargas que somam alto valor agregado e circulação rápida no mercado paralelo. Com menos ações, o prejuízo por ocorrência sobe e a estatística geral engana quem lê apenas o total.
A seletividade também desloca o alvo. Quando a estrada fica mais vigiada, a fragilidade migra para os pontos em que a mercadoria é manuseada, conferida e despachada. É nesse trecho da cadeia que a informação sobre o que foi carregado pode existir ou simplesmente faltar.
Essa mudança explica por que o roubo de cargas no Brasil segue caro mesmo com menos registros. O criminoso deixou de apostar no volume e passou a apostar na informação.
Quais cargas entraram na mira dos criminosos?
As de alto valor agregado e fácil revenda, com destaque para medicamentos e suplementos.
O critério não é o tamanho do volume, e sim a relação entre preço, peso e liquidez. Caixas pequenas, caras e fáceis de escoar valem mais para o mercado paralelo do que um caminhão de mercadoria barata. Produtos de saúde e bem-estar reúnem essas três características.
O perfil desses itens muda a régua de risco de quem vende pela internet:
- valor concentrado em embalagens pequenas, que cabem em qualquer veículo
- demanda constante fora do canal oficial, o que acelera a revenda
- controle sanitário e de validade, que torna o lote desviado um problema de saúde pública
- reposição lenta, quando o item depende de importação ou de produção sob encomenda
Para o consumidor, a consequência do roubo de cargas no Brasil aparece na ponta. Uma carga desviada vira falta de estoque, prazo estourado e, no pior cenário, produto de origem duvidosa circulando fora do canal autorizado.
O que acontece antes de a carga entrar na estrada?
A conferência de saída, a lacração e o registro de lote definem o que poderá ser rastreado depois de uma ocorrência.
A cobertura sobre o roubo de cargas no Brasil costuma parar na rodovia, no motorista e no rastreador. O elo anterior fica de fora, ainda que decida o desfecho de cada caso. É na expedição, etapa em que o pedido é separado e despachado, que nasce o registro do que exatamente saiu.
Vale explicar dois termos. Lote é o conjunto de itens produzidos ou embalados sob um mesmo código, que permite identificar a origem de cada unidade. Carga fracionada é a que reúne pedidos de vários clientes no mesmo veículo, formato dominante no comércio eletrônico.
Matheus Anselmo é fundador e CEO da LOG18K operador logístico, empresa que armazena, separa e despacha pedidos de marcas de suplementos. A operação movimenta mais de 60 mil produtos por mês e atende mais de 30 operações ativas.
“Quando o volume roubado cai mas o crime fica mais seletivo, o alvo deixa de ser a estrada e passa a ser o ponto mais frágil da cadeia. Por isso a conferência e o controle de lote na expedição pesam tanto quanto o monitoramento do veículo: se o pedido sai do centro de distribuição sem registro preciso do que foi separado, nenhum rastreamento na rodovia resolve isso depois.”, afirma o executivo.
“Cada pedido expedido representa uma promessa feita ao consumidor, e ele não distingue se o problema aconteceu no galpão ou na estrada”, diz Anselmo. Ele completa: “É por isso que tratamos previsibilidade como parte do produto, e não como detalhe operacional.”
Como o lote é localizado e bloqueado depois de uma ocorrência?
Pelo cruzamento entre o registro de separação, o número do lote e o documento fiscal de saída.
O bloqueio só funciona quando existe um rastro anterior ao roubo. Se o centro de distribuição sabe quais lotes foram embarcados em cada veículo, a empresa consegue informar autoridades, distribuidores e varejistas em horas. Sem esse registro, resta estimar o prejuízo.
O que precisa estar documentado antes da saída do veículo:
- a lista de itens separados por pedido, com o código do lote de cada unidade
- a conferência de saída assinada, que compara o separado com o embarcado
- o número do lacre aplicado, vinculado ao veículo e à rota
- o documento fiscal emitido, que amarra carga, destinatário e transportador
Essa cadeia de registros define a diferença entre uma ocorrência contida e um prejuízo sem tamanho conhecido. Ela também limita o dano à marca, porque permite comunicar com precisão o que foi perdido.
O que muda para quem compra pela internet
Muda a velocidade da resposta ao problema, e a chance de o pedido virar reenvio rápido em vez de disputa longa.
Quem compra não enxerga a diferença entre galpão e rodovia. Enxerga apenas o pedido que não chegou, o atendimento que não sabe explicar e o dinheiro que ficou parado. A rastreabilidade de lote é o que permite à loja responder com data, não com desculpa.
O leitor pode observar alguns sinais antes de fechar uma compra de valor mais alto:
- se a loja informa prazo com data cheia, e não apenas uma faixa vaga
- se o rastreio mostra a etapa da expedição, e não só a saída para entrega
- se o atendimento identifica o pedido pelo número e explica onde ele parou
- se há política clara de reenvio quando a mercadoria não chega
O roubo de cargas no Brasil deixou de ser um problema só de estrada. Ele passou a ser, também, um teste da qualidade do registro que cada operação mantém antes de o veículo dar a partida.


